
Morte de entregador com ácido durante hemodiálise vai ser investigada como homicídio culposo
O pai do entregador Bruno Ventura, que morreu após ficar 18 dias internado por complicações de uma hemodiálise em São Gonçalo, desabafou no Instituto Médico Legal de Tribobó, em São Gonçalo nesta terça-feira (9). O caso agora é investigado como homicídio culposo pela polícia do Rio.
“Hoje se eu falar que quero justiça, meu coração é raiva pura”, disse Márcio Luiz dos Santos, saudoso ao lembrar do filho.
“Até na clínica de hemodiálise, conheciam ele pelo sorriso. Entrava bem, saia bem.. Ele ia dirigindo para clínica, voltava dirigindo da clínica”, lembrou. O tratamento era realizado na clínica Nice Diálise, no bairro São Miguel.
O laudo do pronto socorro que atendeu Bruno mostra que ele teve rebaixamento do nível da consciência durante a sessão de hemodiálise, e que recebeu uma infusão acidental de ácido peracético. Bruno sofreu hemorragia com edema cerebral.
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O entregador ficou 18 dias internado, em coma, na UTI do Pronto Socorro Central Dr. Armando Gomes de Sá Couto, no bairro Zé Garoto, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio.
A Secretaria de Saúde afirmou que vai fazer a transferência de pacientes da unidade para outros hospitais.
Em nota, a pasta afirmou ainda que determinou que a clínica apresente um cronograma de melhorias nos processos de trabalho e de capacitação da equipe, para garantir maior segurança no atendimento aos pacientes.
Relembre o caso
Segundo a família do jovem, Bruno foi contaminado com ácido peracético – uma fórmula química comumente usada na limpeza de equipamentos e materiais médicos. O ácido estava presente na máquina utilizada na hemodiálise.
Ao g1, Márcio contou que o filho teve uma infecção forte e não resistiu, após 18 dias lutando pela recuperação médica.
“Ele lutou por 18 dias. Um dia melhorava, no outro piorava. Mas ele teve uma infecção e não aguentou”, explicou Márcio.
Bruno Ventura, de 29 anos, estava internado em estado gravíssimo, após complicações durante uma hemodiálise realizada na clínica particular Nice Diálise, no bairro São Miguel.
Arquivo pessoal
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A Prefeitura de São Gonçalo confirmou ao g1 a morte de Bruno. “O município se solidariza com a família do rapaz e se coloca à disposição neste momento de dor”.
Morador de Maricá, Bruno foi encaminhado para a clínica em São Gonçalo pela Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro (SES), que é o órgão responsável por fiscalizar as clinicas de hemodiálise.
Em nota, a SES disse que determinou que a clínica apresente um cronograma de melhorias em seus processos de trabalho e de capacitação da equipe, a fim de garantir maior segurança no atendimento aos pacientes.
Enquanto isso, segundo a Secretaria de Saúde, a pasta está realizando a transferência dos pacientes que eram atendidos na clínica para unidades de referência na região para garantir a continuidade do tratamento.
Bruno Ventura, de 29 anos, estava internado em estado gravíssimo, após complicações durante uma hemodiálise realizada na clínica particular Nice Diálise, no bairro São Miguel.
Arquivo pessoal
Polícia Civil investiga
Os pais de Bruno relataram à Polícia Civil que o diretor técnico da clínica Nice Diálise admitiu a falha e informou que resíduos do ácido estavam presentes na máquina utilizada na hemodiálise de Bruno.
O caso aconteceu na manhã do dia 20 de agosto e é investigado pela Polícia Civil como lesão corporal por imperícia. Contudo, com a morte de Bruno, a tipificação do crime deverá ser alterada.
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Conforme o boletim de ocorrência da 72ª DP (São Gonçalo), o ácido — utilizado para desinfecção das máquinas de diálise — foi introduzido acidentalmente no organismo de Bruno. O erro teria ocorrido durante a troca da profissional responsável por atendê-lo.
“Ele sempre fazia a sessão com a mesma técnica, mas nesse dia colocaram outra. A gente não sabe se foi por imperícia, imprudência, só sei que não teve cuidado”, contou Márcio Luiz dos Santos.
Bruno foi socorrido pelo Corpo de Bombeiros e levado inconsciente para o Pronto Socorro Central Dr. Armando Gomes de Sá Couto, onde foi entubado e ficou em coma induzido na UTI.
O laudo médico da unidade de saúde confirmou a contaminação e apontou hemorragia cerebral, edema e insuficiência respiratória aguda como consequências do episódio.
De acordo com o delegado Fábio Luiz Souza, titular da 72ª DP (São Gonçalo), a investigação sobre o caso está na reta final. O delegado informou que quase todas as pessoas da clínica, envolvidas no procedimento, já foram ouvidas.
Certificado vencido
A clínica onde ocorreu o incidente, identificada como Nice Diálise, funciona no bairro São Miguel. Segundo o boletim de ocorrência, o estabelecimento está com o certificado de regularidade vencido desde 28 de junho de 2025.
Na época do acidente, a Secretaria Estadual de Saúde (SES) afirmou que a Superintendência de Vigilância Sanitária havia iniciado um processo de investigação sobre o caso e que equipes do órgão estiveram no local para uma inspeção. Na ocasião, eles constataram que as licenças sanitárias para o funcionamento da unidade estavam em dia.
Ainda segundo a pasta, a análise do caso está sendo realizada de forma minuciosa para que os fatos sejam esclarecidos e as medidas cabíveis sejam adotadas rapidamente.
A Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil de São Gonçalo (Semsadc) disse que a clínica é credenciada para atendimentos de alta complexidade pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e havia convênio com a cidade de São Gonçalo, até o fim de abril deste ano, por estar localizada no município.
O Conselho Regional de Medicina do Rio (Cremerj) informou que o diretor técnico da clínica Nice Diálise possui registro médico ativo na instituição.
O Conselho acrescentou que abriu sindicância para apurar os fatos.
Caso de Bruno mobiliza parentes, que buscam esclarecimentos sobre o atendimento médico
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