Começa o júri popular dos dois réus pela morte do cinegrafista Santiago Andrade


Cinegrafista foi atingido por um rojão durante uma cobertura no Rio, em 2014. Para acusação, réus assumiram risco de matar atirando rojão; defesas alegam ‘fatalidade’. Caio Silva de Souza no Tribunal do Rio de Janeiro
Raoni Alves/g1
Quase 10 anos depois do crime, começou na tarde desta terça-feira (12) o júri popular dos dois réus acusados de matar o cinegrafista Santiago Andrade. Ele foi atingido por um rojão durante um protesto no Centro do Rio em 2014.
Fábio Raposo Barbosa e Caio Silva de Souza são réus por homicídio doloso qualificado por emprego de explosivo. A pena prevista é de 12 a 30 anos de prisão.
“A emoção é muito grande, queria que o dia de hoje mudasse tudo isso porque é um sofrimento muito grande para a família toda. Nossa felicidade é que ele pôde salvar cinco pessoas através dos órgãos”, disse a víuva, Arlita Andrade.
O júri é presidido pela juíza Tula Corrêa de Mello, da 3ª Vara Criminal do Rio.
Vanessa Andrade, filha, e Arlita Andrade, viúva, no Tribunal
Raoni Alves/g1
“O que fizeram com ele foi uma covardia, eles queriam atingir um policial e atingiram o Santiago. Mesmo depois de cair, ele não soltou a câmera, que era companheira dele”, completa ela.
Fábio e Caior chegaram a ficar presos, de 2014 a 2015, e hoje respondem em liberdade.
“Não dá para a gente aceitar nesses 10 anos que isso fique impune. É uma dor que a gente não consegue mensurar, que a gente consiga com a Justiça tirar esse nó da garganta. A gente quer encerrar essa página”, destaca a filha Vanessa Andrade.
Morte do cinegrafista Santiago Andrade vai a júri popular após quase 10 anos
“Eles são assassinos. Eles estão soltos enquanto na verdade nós é que estamos presos. Eles têm a oportunidade de refazer a vida, mas e a família? Quando vamos ter essa chance? Espero que seja amanhã”, completa Vanessa.
Para a filha, o júri, marcado após quase 10 anos de espera é fundamental para diminuir a dor da família.
Santiago Andrade, que era repórter cinematográfico da Band
Reprodução/Arquivo Pessoal
“Era um homem que só estava cumprindo com seu trabalho de levar informação para a sociedade. Quem matou Santigo não pode sair impune. A minha família precisa voltar a viver, esse pesadelo precisa ter fim”, afirmou Vanessa.
Ao RJ2, Vanessa, mãe de Maitê, de 6 anos, conta que a filha se refere ao avô com outro nome: “São Tiago”:
“Tiraram principalmente o privilégio de ver nascer a sua neta, de ver crescer essa menina incrível, que carrega o sobrenome dele, que ele tanto se orgulhava.”
Agradecimento à imprensa
Antes da audiência, a família de Santiago fez um agradecimento emocionado à imprensa. Com lágrimas nos olhos, Vanessa falou especialmente com os cinegrafistas presentes, alguns colegas de trabalho de Santiago Andrade.
“Tenho muito respeito pela profissão, até porque eu sei que meu pai certamente seria um de vocês aqui. Muito obrigado a todos vocês”, comentou Vanessa.
Sequência de fotos do momento em que o cinegrafista Santiago Andrade é atingido por um rojão durante protesto no Rio rendeu prêmio a fotógrafo d’O Globo
Domingos Peixoto/Agência O Globo
Acusação vê risco assumido de matar
A advogada Carolina Heringer, que representa a família da vítima, lembrou que havia conflitos diversos entre manifestantes e policiais naquele período, e que Caio e Fábio tinham como objetivo utilizar o rojão em direção aos agentes e, portanto, assumiram o risco de ferir ou matar alguém – o chamado dolo eventual.
“Eles usaram o rojão como uma arma, claramente, e obviamente sabiam que esse artefato poderia ferir ou matar alguém. Isso não pode ser tratado como um acidente, foi algo que era previsível acontecer e os réus simplesmente não se importaram com o resultado que seus atos teriam. De forma alguma temos uma conduta culposa, mas sim dolosa”, avaliou.
O cinegrafista Santiago Andrade teve morte cerebral decretada quatro dias depois de ser atingido por rojão na cabeça
Arquivo Pessoal
Segundo Heringer, a preocupação da família é uma pena mais baixa, com chances de o caso prescrever e ser arquivado.
“O grande receio da família é que de fato haja essa desclassificação que não seja mais crime doloso contra a vida, que seja homicídio culposo ou explosão com resultado morte, logicamente crimes com pena muito mais baixa.”
Junho de 2013, 10 dez anos depois: família de cinegrafista morto em protesto aguarda júri
Em junho, uma reportagem do g1 ouviu Arlita, viúva de Santiago, e sua filha Vanessa, que contaram sobre a longa espera por um júri popular.
“A gente não fecha um ciclo. Ainda que a vida continue, essa página nunca vai ser virada. Enquanto isso não se resolver, ela não vira”, disse Vanessa.
A Justiça do Rio determinou uma nova data três dias depois.
O julgamento estava previsto para acontecer em 2019, mas foi suspenso após um habeas corpus. O motivo era a ausência de imagens da câmera do cinegrafista que foram gravadas no dia 6 de fevereiro, em que ele foi atingido durante a manifestação no Centro do Rio.
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Suspeito de atirar rojão é preso
2013, dez anos depois
O que dizem as defesas de Caio e Fábio
Polícia Civil divulga foto atualizada de Caio Silva de Souza, de 23 anos, suspeito de lançar o rojão que matou o cinegrafista Santiago Andrade
Divulgação / Polícia Civil
Para as defesas dos dois acusados, a morte de Santiago foi uma fatalidade, e não houve intenção de Caio e Fábio de matar o cinegrafista.
A defesa alega que ele já se manifestou inúmeras vezes e sente muito pelo que aconteceu.
“Espera-se que os jurados reconheçam que, obviamente, os acusados não tiveram qualquer intenção ou anuíram com a triste morte de Santiago de Andrade. De qualquer maneira, Caio Silva de Souza sente muito pelo ocorrido e se solidariza com a família do cinegrafista que perdeu a vida enquanto exercia seu ofício”, diz a defesa, formada pelos advogados Antônio Pedro Melchior, Leonardo Rivera e Rodrigo Faucz.
“Espero a justiça. Não houve dolo, sequer eventual. Na hipótese, os agentes atuaram sem a observância do dever de culpado, por isso o crime é culposo”, afirmou Wallace Martins, advogado de Fábio Raposo.
Caio Silva de Souza e Fábio Raposo
Reprodução / TV Globo
Os advogados tentaram novamente um habeas corpus para suspender o júri por conta de falta de imagens da câmera utilizada por Santiago no momento em que foi atingido, mas o pedido foi negado.
A defesa de Caio alega que a emissora onde ele trabalhava apagou imagens gravadas pelo cinegrafista, o que “impede que todas as circunstâncias do crime sejam analisadas”.
A juíza Tula Corrêa de Mello, da 3ª Vara Criminal, que negou o pedido, a prova é dispensável, uma vez que posteriormente foram apresentadas mídias que revelariam a dinâmica até Santiago ser atingido.
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