Alcoólicos em recuperação relatam experiências e desafios para largarem vício: ‘Precisei chegar ao fundo do poço’


Em comemoração ao Dia do Alcoólico Recuperado, celebrado neste sábado (9), o g1 conversou com dois alcoólatras em recuperação que participam de uma irmandade, a fim de tratar o alcoolismo um dia de cada vez. Alcoólicos em recuperação relatam experiências e desafios para largarem vício do álcool
Gerd Altmann para Pixabay
Neste sábado (9) é celebrado o Dia do Alcoólico Recuperado. A data traz um momento de reflexão a todos os alcoólicos que buscam manter sua sobriedade, além de suas famílias e amigos que ofereceram apoio durante os tempos difíceis.
Neste ano, a programação de Alcoólicos Anônimos (AA), uma organização que auxilia no combate ao alcoolismo, completou 88 anos de existência. Em entrevista ao g1, dois alcoólicos em recuperação, que preferiram não se identificar, compartilharam suas experiências pessoais e os maiores desafios dessa jornada.
Vale ressaltar que a terminologia “alcoólatra” refere-se a uma pessoa que é viciada em álcool. No entanto, a partir do momento em que busca ajuda, passa a ser chamada de “alcoólico em recuperação”, por isso o nome da data.
“Eu venho mantendo o exercício da minha sobriedade há seis anos, sem jamais me esquecer que é ‘só por hoje’, as 24 horas atuais. Eu precisei chegar ao fundo do poço; perdi totalmente o controle e a minha identidade, de tantos experimentos que tive em minha vida”, conta.
“Acabei me desvinculando da minha família, do meu profissionalismo e de mim mesmo. Me identifiquei como alcoólatra no momento em que eu não tinha perspectiva de mais nada. Agora venho me policiando, contendo as minhas compulsões”, diz.
Este relato pertence a um membro do AA do interior de São Paulo, de 51 anos. Ele começou a frequentar as reuniões em São Roque e, posteriormente, em Alumínio, onde mora. A unidade na cidade é recente, e ele ajudou a mobilizar uma autorização para que isso pudesse acontecer.
O integrante costuma dizer que tem duas datas de nascimento: “A primeira foi dia 14 de janeiro de 1972, onde meus pais tiveram a alegria de me assistir vindo ao mundo. E, depois, no dia 3 de outubro de 2017, quando entrei em uma sala de AA pela primeira vez. Desde este dia até o momento presente, não coloquei nenhuma gota de álcool em minha boca”.
Cerca de dois meses antes, em uma madrugada de agosto, ele havia passado por um quadro de delirium tremens, que é quando dependentes do álcool entram em um intenso estado de abstinência. Além disso, conta que também começou a ficar deprimido.
“Nessa altura do campeonato eu estava desempregado, com a minha vida toda embargada, sem rumo. Estava dando trabalho pra todo mundo; pra minha esposa, pra minha filha, pra minha mãe. Dando trabalho até para os donos de boteco.”
Depois isso, ele decidiu que queria mudar seus caminhos. Tudo começou quando foi influenciado por um amigo que, nos velhos tempos, tinha o hábito de frequentar bares ao seu lado. Em um reencontro, mais de um ano depois da última vez que se viram, notou que o semblante dele estava muito melhor, e queria entender o que havia acontecido.
Alcoólicos em recuperação relatam experiências e desafios para largarem vício do álcool
jarmoluk/Creative Commons
Nisso, teve o verdadeiro conhecimento sobre a irmandade de AA, e descobriu que o único requisito para ser membro era a vontade de parar de beber.
“Já tentei parar por conta própria antes, mas tem aquela coisa do egoísmo. Achava estar curado e que podia ‘tomar uma para comemorar’. Essa é a grande mentira que os alcoólatras falam para si mesmos, que ‘só uma não vai fazer mal’, pois essa ‘uma’ vira outra, que vira outra e mais outra, e daqui a pouco você já não sabe controlar mais nada em sua vida”, conta.
“Nós do AA nos identificamos um com o outro. São histórias muito parecidas, mas cada um tem a sua e seu personagem. Quando alguém fala de um problema com o álcool, absorvemos a informação e, naquela hora, é como um remédio. Sinto uma paz imensurável”, diz.
O início, em si, foi um de seus maiores desafios. Ele diz que os três primeiros meses foram cruciais para se manter firme com o propósito. Alguns anos depois, apesar de nunca ter recaído, a chegada da pandemia do coronavírus também foi um obstáculo a ser considerado.
Com pandemia, dependentes do Alcoólicos Anônimos sentem falta de reuniões presenciais
“Nem todo mundo tem aquela destreza de manter o propósito de forma remota, sem precisar ir à sala e manter aquele propósito. Existem pessoas que têm aquela ansiedade incontrolável em si, e qualquer coisinha é motivo para ter uma recaída. Isso aconteceu muito. Lamentavelmente, bastante gente abandonou o barco, bastante gente morreu devido à recaída, bastante gente abandonou a irmandade”, menciona o integrante.
Seu padrinho de AA, um morador de São Roque, de 55 anos, já possui 24 anos de sobriedade. Ele também diz que os primeiros dias são a parte mais difícil do processo, mas que, conforme eles foram passando, a vontade de beber também foi.
“Quando percebi que já tinha passado uma semana sem beber e eu estava bem com minha saúde mental, física e espiritual, desejei viver assim. E assim estou vivendo”, lembra.
Ele explica que o sentido do apadrinhamento na irmandade é para que o alcoólatra possa se espelhar no modo de vida de um companheiro, que irá lhe passar todos os ensinamentos e os primeiros passos da programação.
“Pessoalmente, é sentir que só por hoje estou vencendo o alcoolismo, e que o amanhã pertence à vontade de Deus em minha vida. Como membro de Alcoólicos Anônimos, é ver outros chegarem na mesma situação que eu, e conseguirem viver sem fazer o uso do álcool.”
O afilhado também compartilha sua felicidade e gratidão, mencionando que as pessoas que mais ama estavam notando seus avanços e mudanças de comportamento.
“Viram que eu estava melhorando, que eu passei a ser uma outra pessoa. Minha família me aceitou de volta pra casa. O convívio com a minha mãe melhorou, com meus amigos verdadeiros melhorou, e o melhor presente de todos foi o meu poder superior, que tenho como Deus, tirar de mim aquele vício que eu tinha pela bebida alcoólica.”
O membro lembra que existem outras formas de buscar ajuda, e que nenhuma deve ser invalidada, pois cada um se encontra de uma forma. “Há pessoas que acham a solução no psiquiatra, no meio religioso e na clínica”, conta.
“O alcoolismo é uma doença reconhecida pela Organização Mundial de Saúde. É incurável, progressivo e de terminação fatal. Se a doença não for tratada a tempo, pode levar à loucura ou à morte prematura. Não existe cura, porém existe tratamento”, explica.
Os grupos de apoio do AA podem ser conferidos através do site, e o membro finaliza reforçando o princípio do anonimato nas reuniões: “O que você vê lá, o que você ouve lá, quando você sair de lá, deixe que fique lá. Simples assim”.
*Colaborou sob supervisão de Júlia Martins
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